Como apontei, o tooling usado pra fabricação dos switches Blue (leia-se stems do Blue já que o resto do switch é idêntico) é de fato mais difícil de se fabricar com precisão, como pode ver nessa imagem são duas peças uma encaixada na outra, sendo a peça branca a principal responsável pelo acionalmento do switch, dá pra ver que tem um certo jogo entre a peça colorida e a branca e isso traz diferenças na atuação se não trabalharem em perfeito conjunto e isso influencia no
tempo de contato que falo mais à frente.
Um exemplo de um molde estável é o stem Red que é totalmente sólido e a atuação é bastante previsível seguindo um padrão inclinado.
Não à toa o primeiro switch MX fabricado em larga escala pela Cherry foram os Blacks, pois eles são lineares, portanto são os switches que eles mais gastaram em R&D para aperfeiçoar, significando um sinal de grande confiabilidade, este switch quando saíu era rateado à 50 milhões de acionamentos.
Quando começou então a introduzir outros switches, começando primeiro pelo Red já que é basicamente a mesma coisa do Black porém com uma mola mais macia, seguindo sugestão de pessoas que tinham dificuldade em acionar uma tecla tão pesada quanto o Black, por isso esse switch também veio com o rating de 50 milhões já que mudou apenas a mola. Os switches de demais sabores vieram em sequência, primeiro os tácteis e então o famigerado click. Este no começo teve problemas de confiabilidade, a própria Cherry só conseguiu ratear ele até 20 millhões de cliques com confiança. Quando aplicado em teclados de grande acesso do público o aparecimento de vários casos de pessoas reclamando de switches dando double-click ou falta de retorno começou, para dar o release do switch tinha que subir ele acima do click (hoje em dia já se pode fazer acionamentos repetidos nele se conseguir segurar logo abaixo do click mas sem precisar fazer ele votlar totalmente). Inclusive peguei resquícios dessa época quando entrei para os teclados mecânicos, via muita gente falando da pouca confiabilidade desse switch e nunca entendi porquê já que na época já estavam à 50 mi no site oficial, foi então que descobri desse problema dos blues anteriores em alguns teclados.
Agora quanto à qualidade em relação aos clones, me refiro mais mesmo ao próprio know-how e R&D que a Cherry dispôs em cima dos switches e da tecnologia por tantos anos, eles levam os números que eles põem no anúncio bem à sério e essa confiabilidade e estabilidade os faz serem usados em aplicações de missão crítica como paineis de controle de aviões, acionamento de maquinário pesado dentro de indústrias por exemplo. Se der uma olhada aqui (foi a única fonte que consegui encontrar que mostra um pouco mais do processo) pode ver mais ou menos como funciona o processo de validação que eles fazem.
Tendo isso em mente, um dos maiores inimigos de qualquer switch de atuação mecânica (especialmente que envolve o contato direto de duas partes metálicas) é um termo na eletrônica conhecido como contact bounce (
pode ler a respeito aqui). Em resumo, quanto menor for esse bounce, mais preciso e confiável é o switch e mais rápido a controladora pode executar o comando. A Cherry além das patentes de formato físico de switch também retinha a patente sobre o tipo de contato que cada haste metálida tinha como também sua composição, chegaram a conclusão que para minimizar o contact bounce, era melhor utilizar um contato em forma de cruz como pode ser visto em detalhe (créditos da imagem ao Ripster,
fonte)
Comparado com um Kailh (créditos da imagem ao Ripster,
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O Gateron foi o que mais me orgulhou, seguindo o exeplo certo (créditos da imagem ao Ripster,
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KBT também na direção certa (
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Este contato junto com a liga correta de cobre e ouro e prata nas pontas provê o que a Cherry foi tão famosa por tantos anos, que é a precisão, fora é necessário um molde só pra fazê-lo e essa era sua vantagem competitiva. Mas como sabe depois de um tempo sem inovação as patentes cairam por terra e o mercado foi inundado pelo que chamamos de "clones" mas é meio pejorativo, na verdade esta é a famosa competição.
Na pressa de soltar produtos com similaridades aos switches mais famosos do mercado até aquele momento, algumas marcas Chinesas acabaram por pecar em algumas coisas, uma delas foi a precisão nos moldes e barateamento do material dos contatos e seu formato. Na sede de ocupar um mercado monopolizado eles não se preocuparam muito com esses detalhes e muitos switches dos primeiros que saíram eram terríveis, não tinham a mesma precisão e nem o mesmo feeling, o que os fazia falhar e dar double-click muito cedo já que inclusive as empresas eram novatas nesse mercado específico e ficou marcado como algo ruím por muito tempo. Dá pra ver só pelo fiasco que foi o lançamento do switch Razer das primeiras edições especialmetne a variante Clicky, além de reduzirem o ponto de acionalmento, o que deveria ter sido testado por mais tempo, mas lançaram às pressas.
Mas como era de se esperar o mercado foi amadurecendo, as companhias que fabricavam esses switches continuavam a cometer os mesmos erros até que começaram aparecer concorrentes de peso, deram mais crédito para o R&D e começaram a surgir marcas como KBT e Gateron que são notáveis exemplos de boas implementações do modelo básico vindo da Cherry, e por serem bons (mesmo sendo diferentes do feeling original, o que foi a chave pro sucesso) deixaram sua marca de maneira positiva e vieram outras marcas que resolveram se arriscar e pelo jeito estão acertando também em alguns aspéctos, aos poucos esse mercado está se desenvolvendo e compartilho da opinião de que em breve poderemos dispensar a Cherry como único sinonimo de qualidade (que enfatizo mais à frente o porquê), ainda faltam alguns detalhes como por exemplo consistência nas molas (muitos preferem comprar kits de molas custom da coréia para fazer mods já que as normais desses citados ainda é encontrado diferença de feeling dentro do mesmo lote), mas estamos caminhando para algo promissor.
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fonte)
Sendo assim o que se ouve hoje aqui e ali que alguns concorrentes estão de fato tendo um feeling mais agradável a ponto de serem preferidos ao feeling dos Cherrys, e isso se dá ao fato único de que a Cherry como toda companhia tradicional alemã, mantem seus padrões o mais estático quanto possíveis, e muitas vezes esse fato a fez parar no tempo, outras companhias já estavam desenvolvendo tecnologias para comportar leds RGB e um case melhor para ser um difusor de luz, fora o acionamento mais alto. A Cherry que estava parada teve de reagir à um movimento do mercado, tão defasada que estava.
Cherry Silent Switch à direita, repare que quando se fala de mudança de moldes ela se mantém sempre nos lineares que dominou por tanto tempo, para não ter de deixar a confiabilidade de lado. (
Fonte da imagem do Silent, crédito ao Taekeyboards)
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Manter os processos tradicionais trás outro malefício e nesse caso envolve o feeling: os moldes estão extremamente velhos. Já foram muito utilizados e estão começando à apresentar tais características nos produtos atuais, essa sensação de arranhar que os Cherrys tem e os Gaterons por exemplo não tem, vêm desses moldes. Sempre se ouve falar de entusiástas idolatrando os Vintages, sejam Vintage Blacks, ou VIntage Blues, (produzidos no final dos anos 80 e principio dos 90) porque de fato o feeling deles era bem melhor do que o atual, e em breve a empresa vai ter que soltar uma resposta para isso também, a medida que esses moldes começarão a ficar defasados e diminuirem a precisão da fabricação.
Dá pra ver bem o molde poroso da Cherry à direita se comparado com o molde mais bem feito da Gateron à esquerda (
Fonte, créditos da imagem ao Zeal)