Retirado do Livro
O Porquê da Vida
Léon Denis
Tradução de
Paulo A Ferreira
144 kb
II - OS PROBLEMAS DA EXISTÊNCIA
O que importa ao homem saber, acima de tudo, é: o que ele é, de onde vem, para onde
vai, qual o seu destino. As idéias que fazemos do universo e de suas leis, da função que
cada um deve exercer sobre este vasto teatro, são de uma importância capital. Por elas
dirigimos nossos atos. Consultando-as, estabelecemos um objetivo em nossas vidas e
para ele caminhamos. Nisso está a base, o que verdadeiramente motiva toda civilização.
Tão superficial é seu ideal, quanto superficial é o homem. Para as coletividades, como
para o indivíduo, é a concepção do mundo e da vida que determina os deveres, fixa o
caminho a seguir e as resoluções a adotar.
Mas, como dissemos, a dificuldade em resolver esses problemas, muito freqüentemente,
nos faz rejeitá-los. A opinião da grande maioria é vacilante e indecisa, seus atos e
caracteres disso sofrem a conseqüência. É o mal da época, a causa da perturbação à qual
se mantém presa. Tem-se o instinto do progresso, pode-se caminhar mas, para chegar
aonde? É nisto que não se pensa o bastante. O homem, ignorante de seus destinos, é
semelhante a um viajante que percorre maquinalmente um caminho sem conhecer o
ponto de partida nem o de chegada, sem saber porque viaja e que, por conseguinte, está
sempre disposto a parar ao menor obstáculo, perdendo tempo e descuidando-se do
objetivo a atingir.
A insuficiência e obscuridade das doutrinas religiosas e os abusos que têm engendrado,
lançam numerosos espíritos ao materialismo. Crê-se, voluntariamente, que tudo acaba
com a morte, que o homem não tem outro destino senão o de se esvanecer no nada.
Demonstraremos a seguir como esta maneira de ver está em oposição flagrante à
experiência e à razão. Digamos, desde já, que está destituída de toda noção de justiça e
progresso.
Se a vida estivesse circunscrita ao período que vai do berço à tumba, se as perspectivas
da imortalidade não viessem esclarecer sua existência, o homem não teria outra lei
senão a de seus instintos, apetites e gozos. Pouco importaria que amasse o bem e a
eqüidade. Se não faz senão aparecer e desaparecer nesse mundo, se traz consigo o
esquecimento de suas esperanças e afeições, sofreria tanto mais quanto mais puras e
mais elevadas fossem suas aspirações; amando a justiça, soldado do direito, acreditar-
se-ia condenado a quase nunca ver sua realização; apaixonado pelo progresso, sensível
aos males de seus semelhantes, imaginaria que se extinguiria antes de ver triunfarem
seus princípios.
Com a perspectiva do nada, quanto mais tivesse praticado o devotamento e a justiça,
mais sua vida seria fértil em amarguras e decepções. O egoísmo, bem compreendido,
seria a suprema sabedoria; a existência perderia toda sua grandeza e dignidade. As mais
nobres faculdades e as mais generosas tendências do espírito humano terminariam por
se dobrar e extinguir inteiramente.
A negação da vida futura suprime também toda sanção moral. Com ela, quer sejam bons
ou maus, criminosos ou sublimes, todos os atos levariam aos mesmos resultados. Não
haveria compensações às existências miseráveis, à obscuridade, à opressão, à dor; não
haveria consolação nas provas, esperança para os aflitos. Nenhuma diferença se poderia
esperar, no porvir, entre o egoísta, que viveu somente para si, e freqüentemente na
dependência de seus semelhantes, e o mártir ou o apóstolo que sofreu, que sucumbiu em
combate para a emancipação e o progresso da raça humana. A mesma treva lhes serviria
de mortalha.
Se tudo terminasse com a morte o ser não teria nenhuma razão de se constranger, de
conter seus instintos e seus gostos. Fora das leis terrestres, ninguém o poderia deter. O
bem e o mal, o justo e o injusto se confundiriam igualmente e se misturariam no nada. E
o suicídio seria sempre um meio de escapar aos rigores das leis humanas.
A crença no nada, ao mesmo tempo em que arruína toda sanção moral, deixa sem
solução o problema da desigualdade das existências, naquilo que toca à diversidade das
faculdades, das aptidões, das situações e dos méritos. Com efeito, por que a uns todos os
dons de espírito e do coração e os favores da fortuna, enquanto que tantos outros não
têm compartilhado senão a pobreza intelectual, os vícios e a miséria? Por que, na
mesma família, parentes e irmãos, saídos da mesma carne e do mesmo sangue, diferem
essencialmente sobre tantos pontos? Tantas questões insolúveis para os materialistas e
que podem ser respondidas tão bem pelos crentes. Essas questões, nós iremos examinar
brevemente à luz da razão.